Você monta a bateria para uma avaliação de porte de arma e precisa de um projetivo de personalidade. Pfister ou Zulliger? A resposta muda conforme o contexto — e, desde 2018, muda também conforme a versão do Zulliger que você tem em mãos.
Este conteúdo é dirigido a psicólogos com registro ativo no CRP. Não substitui a leitura dos manuais técnicos de cada instrumento e os parâmetros normativos pertencem exclusivamente aos manuais.
O que cada instrumento avalia
Pfister e Zulliger são projetivos de personalidade, mas operam por lógicas distintas. O Pfister é uma técnica expressiva: você trabalha com quadrículos coloridos organizados em pirâmides, e a análise recai sobre escolhas cromáticas, frequências e aspectos formais. Capta sobretudo a dinâmica afetiva e o nível de estruturação emocional. A autora de referência no Brasil é Anna Elisa de Villemor-Amaral, cuja pesquisa sustenta as normas vigentes.
O Zulliger, por sua vez, é derivado do Rorschach — usa manchas de tinta em pranchas, e a codificação envolve localizações, determinantes, qualidade formal e conteúdos. O espectro é mais amplo: além de afeto, acessa funcionamento cognitivo, controle ideacional e relação com a realidade. A codificação, porém, exige mais tempo e treino específico no sistema adotado.
Dois sistemas de codificação do Zulliger coexistem no Brasil: o Sistema Compreensivo (SC), de Cícero Vaz, e o Sistema Escola de Paris (SEP). Essa distinção importa — e muito — para a questão regulatória que vamos tratar adiante.
Em números concretos: a aplicação do Pfister leva de 15 a 30 minutos, enquanto o Zulliger costuma tomar de 20 a 40 minutos. A codificação posterior é onde a diferença se acentua: no Pfister, o processo manual consome de 1 a 2 horas; no Zulliger, pode ultrapassar 3 horas, dependendo do sistema e da experiência do psicólogo com a técnica.
Comparativo prático por contexto de avaliação
A escolha entre os dois não é sobre qual é "melhor". É sobre qual responde de forma mais eficiente à demanda do seu laudo.
Trânsito e porte de arma
Ambos são aceitos em baterias para avaliação psicológica no trânsito e para porte de arma de fogo. O Pfister tem vantagem operacional clara: a aplicação é mais rápida, não exige verbalização do candidato e a correção é mais objetiva. Se você atende 10 ou mais candidatos por semana no DETRAN — realidade de boa parte dos credenciados — essa diferença de tempo acumula e pesa no final do mês.
O Zulliger (na versão Z-SEP, a única favorável no SATEPSI) traz mais profundidade sobre o funcionamento cognitivo. Útil quando a demanda do órgão exige análise além do perfil afetivo, ou quando o candidato apresenta indicadores que justificam investigação mais detalhada.
Clínica e psicodiagnóstico
Em psicodiagnóstico, o Zulliger costuma ser preferido quando você precisa de dados sobre pensamento formal, controle ideacional e teste de realidade — aspectos que o Pfister não acessa diretamente. Uma psicóloga clínica que recebe encaminhamento psiquiátrico para investigação de transtorno de personalidade, por exemplo, vai extrair mais do Z-SEP do que do Pfister nesse quesito específico.
Já o Pfister é escolha forte para complementar escalas de humor (como o BDI-II ou o BAI) quando o foco é dinâmica afetiva e regulação emocional. A combinação Pfister + escala objetiva oferece cruzamento entre técnica projetiva e autorelato — dois ângulos diferentes sobre o mesmo paciente.
Organizacional e seleção de pessoal
Para processos seletivos com volume alto de candidatos, o Pfister ganha pela rapidez e pela possibilidade de aplicação sem verbalização. O Zulliger permite aplicação coletiva — vantagem real em seleções com mais de 15 candidatos simultâneos. A Resolução CFP 8/2025 reforça que a escolha do instrumento deve ser justificada tecnicamente no laudo, independentemente do contexto organizacional.
Populações especiais
O Pfister não exige linguagem verbal, o que o torna indicado para crianças a partir de 6 anos (versão infantil publicada pela Hogrefe), idosos com dificuldades de expressão e pessoas com deficiência auditiva. O Zulliger, por depender de resposta verbal durante a associação livre, tem limitações nesses cenários — embora a aplicação coletiva escrita contorne parcialmente a questão.
Alerta regulatório: qual versão do Zulliger usar em 2026
Esse é o ponto que muitos psicólogos ainda desconhecem — e que pode comprometer laudos.
- Z-Teste (Sistema Compreensivo, Cícero Vaz, Hogrefe): desfavorável desde 10 de dezembro de 2018 por estudos de normatização vencidos. Usar o Z-Teste em laudo hoje expõe você a contestação técnica e potencial infração ética.
- Z-SEP (Sistema Escola de Paris): favorável no SATEPSI. Esta é a versão que você deve adotar se optar pelo Zulliger.
O Pfister (Pirâmides Coloridas) mantém parecer favorável em ambas as versões — adulto e infantil. Antes de qualquer aplicação, verifique a lista oficial atualizada do SATEPSI.
A Resolução CFP 31/2022 é explícita: instrumentos com parecer desfavorável não devem ser utilizados em avaliação psicológica. Se você comprou o Z-Teste antes de 2018 e ainda usa o material, vale conferir se a versão que tem é de fato o Z-SEP — ou se está usando um instrumento sem respaldo técnico-legal há mais de 7 anos.
Usar os dois juntos? O que dizem as pesquisas brasileiras
Estudos brasileiros recentes mostram que Pfister e Zulliger oferecem informações complementares — não redundantes. Cardoso, Gomes e Costa (2021), em estudo publicado na revista Avaliação Psicológica com 172 crianças de 6 a 11 anos, encontraram 34 correlações significativas entre indicadores cognitivos dos dois testes, mas todas de magnitude fraca. A conclusão dos autores: os instrumentos podem ser usados de maneira complementar na avaliação da personalidade.
Franco e Villemor-Amaral (2012) chegaram a resultado similar em um estudo com dependentes químicos no Brasil e na França, analisando ambos os testes pela abordagem da psicopatologia fenômeno-estrutural: consistência entre as informações geradas, mas por caminhos distintos.
Na prática, se a demanda do laudo exige tanto perfil afetivo quanto funcionamento cognitivo-perceptivo, combinar Pfister e Z-SEP é uma estratégia com respaldo empírico. Para contextos mais circunscritos — triagem de trânsito com demanda padrão, seleção organizacional de alto volume — um dos dois basta, e o Pfister costuma ser a escolha mais pragmática.
Correção informatizada: o fator tempo na decisão
A codificação de ambos os testes é responsabilidade do psicólogo — isso não muda com nenhuma plataforma. O que muda é o tempo gasto nos cálculos posteriores. A correção manual do Pfister envolve contagem de frequências cromáticas, cálculo de síndromes e classificação do aspecto formal — processo que consome de 1 a 2 horas por protocolo quando feito à mão. No Zulliger, a codificação completa com tabulação de localizações, determinantes, qualidade formal e cálculo do TRI pode ultrapassar 3 horas.
Com a correção informatizada da AvalPsico, você codifica os dados e a plataforma calcula os escores, organiza os índices e gera o resultado em formato pronto para o laudo. O tempo de cálculo cai de horas para minutos. São mais de 6.400 psicólogos usando esse fluxo com mais de 50 instrumentos disponíveis — incluindo tanto o Pfister quanto o Z-SEP e o Zulliger.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre o teste de Pfister e o Zulliger?
O Pfister é uma técnica expressiva que usa pirâmides com quadrículos coloridos para avaliar dinâmica afetiva e estruturação emocional. O Zulliger usa manchas de tinta (derivado do Rorschach) e acessa também funcionamento cognitivo e teste de realidade. A correlação entre os dois é baixa — captam aspectos diferentes da personalidade.
O Zulliger ainda pode ser usado? Qual versão está no SATEPSI?
O Z-SEP (Sistema Escola de Paris) está favorável no SATEPSI. O Z-Teste (Sistema Compreensivo, Cícero Vaz) está desfavorável desde dezembro de 2018 por normatização vencida. Verifique sempre a lista oficial do SATEPSI antes de aplicar.
Posso usar Pfister e Zulliger juntos na mesma avaliação?
Sim. Pesquisas brasileiras (Cardoso et al., 2021; Franco & Villemor-Amaral, 2012) mostram que os dois instrumentos fornecem informações complementares. Combinar Pfister e Z-SEP é especialmente indicado quando o laudo exige análise de perfil afetivo e funcionamento cognitivo-perceptivo.
Qual teste projetivo usar na avaliação para porte de arma?
Pfister e Z-SEP são ambos aceitos em baterias para porte de arma. O Pfister é mais rápido na aplicação e não exige verbalização; o Z-SEP fornece dados adicionais sobre funcionamento cognitivo. A escolha depende da composição da bateria e do tempo disponível. Veja o guia completo de laudo para porte de arma.
Para que serve o teste das Pirâmides Coloridas de Pfister?
O Pfister avalia a dinâmica afetiva e o nível de estruturação emocional da personalidade. É usado em contextos clínico, organizacional, de trânsito e forense. Não exige verbalização, o que o torna acessível para populações com limitações de expressão verbal, incluindo crianças a partir de 6 anos e idosos.
Conclusão
Pfister e Zulliger não competem — complementam-se. A escolha depende do contexto, da demanda do laudo e do tempo que você tem. Para perfil afetivo rápido, Pfister. Para análise cognitivo-perceptiva mais ampla, Z-SEP. Para bateria robusta em psicodiagnóstico, os dois. E antes de aplicar qualquer um, confira o status no SATEPSI — especialmente se ainda tem o Z-Teste na gaveta.
Se a correção manual desses instrumentos ainda consome horas da sua semana, experimente os 14 dias grátis da AvalPsico e veja o tempo de cálculo cair para minutos. Conteúdo dirigido a psicólogos com registro ativo no CRP.