AC-15: como interpretar atenção concentrada em laudos

Guia prático do AC-15 para psicólogos peritos: análise temporal dos três blocos, interpretação qualitativa e erros operacionais que comprometem laudos.

Ilustração editorial de mesa de trabalho com cronômetro de latão, prancheta e óculos em paleta sóbria — representando avaliação de atenção concentrada

Você aplica o AC-15 em doze candidatos por semana, corrige à mão, registra os totais e segue para o laudo. O problema é que o total bruto esconde a informação mais valiosa do teste: o que aconteceu dentro de cada bloco.

Psicólogos peritos que trabalham com trânsito e porte de arma costumam tratar o AC-15 como instrumento de "pontuação única" — somam acertos, consultam a tabela e classificam. Essa leitura funciona para triagem rápida, mas perde o diferencial que o AC-15 oferece: a análise temporal da atenção ao longo de 15 minutos sob pressão de monotonia.

Este conteúdo é dirigido a psicólogos com registro ativo no CRP. Não substitui a leitura do manual técnico do AC-15 (Boccalandro, Vetor Editora, 3ª edição).

O que o AC-15 avalia — e o que não avalia

O AC-15 mede atenção concentrada, ou seja, a capacidade de manter o foco em uma tarefa repetitiva e monótona por um período contínuo. O instrumento foi desenvolvido por Efraim Rojas Boccalandro e está aprovado pelo SATEPSI desde outubro de 2003, com evidências de validade vigentes até 2038.

Diferentemente de baterias como a BPA, que afere três tipos de atenção (concentrada, dividida e alternada), o AC-15 foca exclusivamente na atenção concentrada. Isso não o torna inferior — significa que ele aprofunda onde outros instrumentos apenas rastreiam. Se você já usa a BPA na sua bateria forense, vale conferir o guia de aplicação e interpretação da BPA que publicamos anteriormente.

A Resolução CFP nº 01/2019 exige que avaliações no trânsito cubram pelo menos três modalidades atencionais. Na prática, o AC-15 entra na bateria ao lado de instrumentos como TEADI (dividida) e TEALT (alternada).

Faixa etária: adolescentes a partir de 16 anos e adultos até 60 anos, com escolaridade mínima de ensino médio. Se o candidato não atinge essa escolaridade, o AC-15 não é o instrumento indicado — e usar normas inadequadas compromete todo o laudo.

O diferencial dos três blocos temporais

O AC-15 divide a aplicação em três intervalos de 5 minutos cada. Esse desenho não é arbitrário: ele permite observar como a atenção se comporta ao longo do tempo. Um candidato pode acertar bastante nos primeiros 5 minutos e despencar no terceiro bloco — ou o inverso.

A análise bloco a bloco revela padrões que o escore global mascara:

  • Rendimento decrescente — queda progressiva do bloco 1 ao bloco 3. Sugere fadiga atencional, baixa resistência à monotonia ou dificuldade de sustentação. Comum em quadros de ansiedade situacional grave, mas não exclusivo deles.
  • Rendimento crescente — melhora progressiva. Pode indicar aquecimento motor-cognitivo, adaptação à tarefa ou efeito de familiarização. Menos comum, mas importante de documentar.
  • Rendimento estável — variação mínima entre blocos. Indica consistência atencional sólida. Para laudos forenses, estabilidade costuma ser a evidência mais clara a favor da aptidão.
  • Pico no segundo bloco com queda no terceiro — padrão em U invertido. Sugere que o candidato atinge pico de rendimento rápido, mas não sustenta. Merece análise à luz de fatores ambientais (ruído, temperatura da sala, horário).

Nenhum desses padrões é diagnóstico isoladamente. O manual do AC-15 orienta que a análise temporal complementa — e não substitui — a classificação normativa.

Interpretação qualitativa: além dos acertos

Contar acertos é o básico. A interpretação qualitativa olha para o como o candidato executa, não só para o quanto.

Três indicadores qualitativos merecem atenção no AC-15:

  1. Padrão de erros. Omissões (pular estímulos-alvo) e comissões (marcar estímulos não-alvo) têm significados diferentes. Omissões concentradas no final da tarefa sugerem fadiga. Omissões dispersas ao longo de todo o protocolo sugerem déficit atencional mais consistente.
  2. Velocidade vs. acurácia. Candidatos que priorizam velocidade cometem mais comissões. Candidatos que priorizam acurácia produzem menos acertos totais, mas com taxa de erro baixa. Para laudos forenses — especialmente trânsito — a acurácia pesa mais que a velocidade bruta, porque dirigir exige detecção confiável de estímulos relevantes (sinais, pedestres), não rapidez sem precisão.
  3. Consistência interna. Compare os acertos entre os três blocos. Se a variação entre o melhor e o pior bloco ultrapassa 30% do rendimento médio, o protocolo pede atenção. Essa variação pode indicar oscilação atencional que não aparece no escore total.

Psicóloga de Curitiba que faz 15 avaliações de trânsito por semana relatou que passou a incluir no laudo um parágrafo sobre consistência temporal do AC-15 — e dois recursos administrativos que recebia por mês caíram para zero. O laudo ficou mais difícil de contestar porque trazia dados concretos sobre sustentação da atenção, não apenas uma classificação.

O AC-15 dentro da bateria forense

No trânsito (CNH), a Resolução CFP nº 01/2019 exige aferição mínima de atenção concentrada, dividida e alternada, além de memória e inteligência. O AC-15 cobre a atenção concentrada. Para completar a bateria atencional, você precisa de pelo menos mais dois instrumentos — um para dividida (como o TEADI) e um para alternada (como o TEALT). Outra opção é usar a BPA, que cobre as três modalidades em uma bateria única, e reservar o AC-15 para aprofundar casos que mereçam análise mais detalhada da concentração.

Para porte de arma (Polícia Federal), não há lista fixa de instrumentos exigidos — a escolha é prerrogativa do psicólogo credenciado, desde que todos tenham parecer favorável no SATEPSI. O AC-15 é uma opção sólida para atenção concentrada nesse contexto. Se você já elabora laudos para porte de arma, a composição específica da bateria fica a seu critério (Resolução CFP nº 8/2025).

Para avaliações de trânsito (CNH), o AC-15 costuma ser combinado com instrumentos de personalidade e inteligência. Lembre-se de documentar a justificativa de cada instrumento escolhido — é exigência do Art. 5º da Resolução CFP nº 31/2022.

O AC-15 também tem uso em contexto organizacional (seleção de pessoal para cargos que exigem vigilância sustentada — operadores de máquina, controladores de tráfego) e clínico (rastreio de déficit atencional em adultos). Não é exclusivo do contexto forense, embora seja onde sua presença é mais frequente.

Uma vantagem prática do AC-15 sobre outros testes de atenção concentrada é a rapidez de aplicação — 15 minutos contra os 20 a 25 de instrumentos alternativos. Para psicólogos peritos que atendem 10 ou mais candidatos por dia em clínicas credenciadas, essa diferença acumula. Em uma semana de 50 avaliações, são mais de 4 horas economizadas só na fase de aplicação. Tempo que vai para análise, redação de laudo e revisão de intercorrências.

Erros operacionais que comprometem o laudo

Mesmo psicólogos experientes cometem erros que não são interpretativos — são operacionais. Um erro operacional no AC-15 pode invalidar o protocolo inteiro.

  1. Não cronometrar cada bloco separadamente. Se você cronometra apenas o total de 15 minutos sem marcar os intervalos de 5 em 5, perde a análise temporal. O manual exige a demarcação. Sem ela, o escore é válido, mas a interpretação fica empobrecida.
  2. Usar tabela normativa inadequada para escolaridade. O AC-15 tem normas diferenciadas. Aplicar a norma de ensino superior em candidato com ensino médio (ou vice-versa) distorce a classificação do candidato. Verificar a escolaridade antes de consultar a tabela é obrigação, não sugestão.
  3. Ignorar a análise de erros. Contar apenas acertos e descartar omissões e comissões. A taxa de erros é indicador qualitativo que o laudo precisa documentar, principalmente quando o escore total está na faixa limítrofe.
  4. Somar acertos dos três blocos sem registrar separadamente. Se você só anotou o total, não pode fazer análise temporal. E se o laudo for questionado em recurso administrativo, você não terá dados para sustentar a interpretação.
  5. Não anotar intercorrências durante a aplicação. Barulho externo, candidato que pede para ir ao banheiro, queda de energia — qualquer fator que afete a condição padronizada precisa constar no protocolo. Sem esse registro, achados atípicos ficam sem explicação plausível.

Como a correção informatizada elimina 4 desses 5 erros

A correção informatizada do AC-15 na AvalPsico calcula automaticamente o escore por bloco, a consistência temporal, os escores Z e a classificação normativa com base na escolaridade e faixa etária que você informa. Dos cinco erros listados acima, quatro são eliminados pela correção digital: cronometragem por bloco (o sistema registra), tabela normativa (selecionada automaticamente), análise de erros (computada) e registro separado por bloco (automático).

O quinto erro — anotar intercorrências — continua sendo responsabilidade sua, porque envolve observação clínica durante a aplicação. Você codifica, a AvalPsico calcula. Se a correção manual do AC-15 ainda consome tempo que poderia ir para a análise qualitativa do laudo, experimente os 14 dias grátis.

Perguntas frequentes

O AC-15 é obrigatório na avaliação para CNH?

Não existe lista fixa de instrumentos obrigatórios para trânsito. A Resolução CFP nº 01/2019 exige que a avaliação cubra pelo menos três tipos de atenção, memória e inteligência — a escolha dos instrumentos é do psicólogo, desde que todos tenham parecer favorável no SATEPSI. O AC-15 é uma das opções para atenção concentrada, ao lado do TEACO-FF, D2-R e do subteste AC da BPA.

Qual a diferença entre o AC-15 e o TEACO-FF?

Ambos medem atenção concentrada, mas diferem na estrutura. O AC-15 divide a aplicação em três blocos de 5 minutos, o que permite análise temporal da consistência. O TEACO-FF usa formato diferente e oferece outras métricas. A escolha depende do contexto e da bateria. Para laudos forenses em que a sustentação da atenção ao longo do tempo é relevante, o AC-15 tem vantagem pela segmentação em blocos.

Como interpretar quando o escore está na faixa limítrofe?

Na faixa limítrofe, o escore total não resolve a questão. É aqui que a análise qualitativa pesa: verifique a consistência entre blocos, a taxa de erros por tipo (omissão vs. comissão) e as condições de aplicação. Um candidato com escore limítrofe mas rendimento estável e poucos erros tem perfil diferente de outro com mesmo escore mas queda acentuada no terceiro bloco. Documente tudo no laudo — a faixa limítrofe é a que mais gera recurso administrativo.

O AC-15 pode ser aplicado coletivamente?

Sim. O manual prevê aplicação individual e coletiva. Em contexto pericial de alto volume (DETRAN, PF), a aplicação coletiva é a mais comum. A padronização das condições (cronometragem, instrução, ambiente) é mais importante que a modalidade de aplicação.

A AvalPsico corrige o AC-15?

Sim. A plataforma calcula acertos por bloco, consistência temporal, escores Z e classificação normativa ajustada por escolaridade e faixa etária. Você codifica, a plataforma calcula — incluindo a análise temporal que, feita à mão, consome os minutos que poderiam ir para a redação do laudo.

O que fica

O AC-15 é mais que um teste de "somar e classificar". A divisão em três blocos é o recurso que separa um laudo genérico de um laudo defensável — porque documenta não apenas o nível de atenção, mas a capacidade de sustentá-la sob condição monótona. Se você usa o AC-15 em avaliações forenses e ainda não explora a análise temporal, está deixando a parte mais forte do instrumento de fora do laudo.

Para eliminar os erros operacionais de correção e ganhar tempo para o que realmente importa — a interpretação —, experimente os 14 dias grátis da AvalPsico. Conteúdo dirigido a psicólogos com registro ativo no CRP. Consulte sempre o manual técnico do AC-15 antes de aplicar.

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